Aquele que me olha, não me vê,
Pois o que vê é somente um corpo
Marcado por datações e envelhecimento
Altura, gordura e carne
E eu sou mais que um corpo
Pois o corpo morre
O corpo dorme, deseja, sente
É o portal que entorpece minha realidade
De ser energia e pertencer aos elementos
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Posso não ser perene
Mas tenho dúvida, muitas dúvidas
Quando quem vejo no espelho
Seja meu reflexo
Pois estar em um corpo
Não é ser um corpo.
Estou mais para um escopo
Do que não conheço
Mas que intuo e entoo
O corpo é chão, cópula, predação
Se é meu este engano
De ser somente chão, cópula, predação
Então sou tão pouco do pouco da criação
Pois como criatura o próprio homem cria
Mas não sopra vida e não produz magia
Quem me olha raramente vê
Além dos cacos que carrego
Do cansaço que me afunda
E do escarro que cuspo ao chão.
Quem me vê aos prantos
Jamais saberá porque canto.
Apesar das maravilhas do chão e do que nele nasce
Lavoisier dizia que é tudo transformação
Pois em Minas vejo os montes
E mesmo não vendo as vilas
Sei que fazendas existem
Coexistem com o nascer e morrer do sol e da lua
Escorrem pelas encostas junto com os pingos da chuva
Se derretem com o cheiro do café matinal
Enquanto o tempo fica gritando
Que não há mais tempo
Nem destempo
E que atemporais são somente aqueles
Que a existência não conseguiu apagar
Quem me vê aos prantos
Sabe que também já pranteou
Parafraseou outros tantos poemas
Que a vida tão bem ensinou
Onde estão as chaves?
Mesmo sem saber o que há por trás da porta
Sei que este é o caminho
Mesmo que me leve p´ra lugar nenhum
